sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Finos linguistas da nossa praça: Michael Seufert

O deputado centrista Michael Seufert é um pândego, que não devia ser levado muito a sério. Isso até lhe faria bem, tornando-o um político melhor no futuro, que bem precisamos deles.

Foto: Estela Silva/LUSA (M. Seufert é o da esquerda)
É um pândego porque resolveu ser um protagonista público e notório em matéria de "língua portuguesa", uma matéria para a qual está, manifestamente, pouco preparado. E não é porque se chama Michael Seufert e é filho de um alemão. Isso é irrelevante.
É o que faz, não o que é, que importa para o caso. E o que faz ele?

Manifesta-se publicamente como acérrimo detrator do Acordo Ortográfico de 1990, o que não se pode levar a mal. Já o mesmo não se pode dizer do facto de ter sido relator da apreciação que a Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura fez de uma petição pública contra o Acordo. Às tantas, já não se sabia onde acabavam as opiniões dele, mal (in) formadas, e começava o papel de "relator". Foi publicamente divulgada, de forma enganadora, a sua posição pessoal como se fosse a conclusão da Comissão. Seufert é o Coordenador do Grupo Parlamentar do CDS-PP nessa mesma 8.ª Comissão – Educação, Ciência e Cultura.

[Ele escreve "8ª", ignorando que o pontinho faz parte das regras da língua portuguesa].

Na sua qualidade de deputado e coordenador, escreveu uma recente carta ao Senador Cyro Miranda, Ilustríssimo presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal do Brasil, a queixar-se do Acordo, a solidarizar-se com as dúvidas e dificuldades que há no Brasil e a disponibilizar-se para uma frente comum de luta contra os que querem conspurcar a nossa língua com simplificações aviltantes (estes termos são meus, mas resumem bem a posição de muitos que são contra o Acordo).

[O Senado brasileiro respondeu enviando a Portugal uma delegação composta pelos professores Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto, integrantes do grupo de trabalho criado na Comissão de Educação, Cultura e Esporte. O professor Ernâni Pimentel é um conhecido expert brasileiro que lidera um movimento pela simplificação radical da ortografia. Vale a pena conhecer o Movimento Acordar Melhor - pessoalmente, revejo-me em muitas daquelas posições e propostas. Um encontro entre Seufert, o aprendiz de feiticeiro que quer manter o "c" de atividade, e Pimentel, o aventureiro que quer que chuva passe a xuva, acabará com todos a beber uns copos e a falar de futebol?]

Finalmente, hoje li que Michael Seufert se indigna contra a sanha regulamentadora do que chama o "estadozinho". Leio no Diário de Notícias:
"Francamente, não há paciência para este higienismo sanitário prossecutório de tudo o que faz mal", escreve o deputado centrista na sua página no Facebook.
Estou completamente de acordo com ele. Também não tenho paci--- Espera aí, "prossecutório"?! Estranho a palavra e vou à tal página do Facebook.


Sim, confirma-se. Prossecutório.
O que significa prossecutório? Nada. Procurei e revirei, não fosse estar enganado - afinal, o homem é um expert nas coisas da língua, especialmente da ortografia. O mais próximo que encontrei foi "prossecutor", aquele que prossegue, que continua... Mas não encaixa na frase. "Higienismo sanitário que prossegue tudo o que faz mal"?

[Também tinha por ali a palavra persecutório (que tem o carácter de perseguição). Hmmmm... Não. Se Seufert escreveu prossecutório, queria mesmo escrever prossecutório, não é?
Ou "prosekutório, como sugere o professor Ernâni.]


2 comentários:

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